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25/03/2006 01:50
A palavra refém
As pétalas estavam entre as páginas do livro. Secavam lentamente definhando entre o cemitério de células vegetais.
Abriu-o para escrever algo e voaram despencando. Abriu-o para ler algo que a confortasse ou para também voar despencando em seu próprio mundo recluso, fugindo de uma fração de si de quem tem medo.
Apanha as pétalas do chão, recoloca-as entre as folhas mal-amadas e chora a tristeza das páginas amareladas que exalam uma desoncertante pergunta.
Amor guardado apodrece.
Amar o quê? O Amor rasga sua pele brotando pelos poros, mordaças de sonhos. Como amar sem nascer? As costas se encostam, o suor transpassa os poros do tecido úmido. As roupas se beijam encharcadas.
Os omoplatas se chocam numa fricção errante, não se veêm. O osso par exibe-se saliente na parte posterior do ombro como se a qualquer momento fosse ser parido; um feto agitado no corpo de sua genitora: o feto da dor.
Amor guardado apodrece.
O feto que não aborta nem nasce lhe causa olheiras na face e a sombra de seus dedos que amedrontam a folha que escreve a desconcentra das palavras cerrando suas pálpebras. Sonha com imagens repetidas, se afoga nas lembranças do que nunca aconteceu.
As pétalas sempre caem das páginas. Poderia colá-las para que não caíssem mais, evitando essa sensação de perda momentânea, falsa liberdade de algo que nem vive mais. Caem agora pétalas em seu rosto fazendo impacientes cócegas; são espantadas como insetos pela mão cega e passional.
A palavra ficara mais uma vez presa dentro da boca; deitada na língua hesitante que desejava, só. Retraía-se querendo sair.
Fora cuspida pelas mãos.
enviada por marieclaire
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