Letras, notas e sentimentos


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02/01/2007 00:00
Qual será o meu próximo
futuro desejado
Que ensolarado,
navega
no passado não cumprido?
enviada por marieclaire



18/11/2006 13:39
mastigo um beijo
antes de engolir as palavras
que eu gostaria de soprar
[ou cuspir]

suspensa no hino dos dias
me decoro
de cor e salteado
me deito
nas palavras
pra não me afogar no silêncio
enviada por marieclaire



12/11/2006 23:53
Nesses momentos de profundo sentimentalismo barato superficial (oh contradição), entendo o que é não entender, e sentir involuntariamente esses espamos risíveis de querer e querer e pensar sobre fatos que ficam retidos dentro dos olhos e não nascem; ficam guardados para um dia de noite-longa-mitológica que será a minha felicidade vendida para um momento.
enviada por marieclaire



02/10/2006 23:26
voltando...
enviada por marieclaire



17/05/2006 00:01
Sofreguidão guiada
chaves tortas
ventania das fechaduras trancadas
afeição pelo nada
imensidão torta

Mãos ébrias tateiam o eco
Fadigadas linhas poéticas
Tatuadas na epiderme
Fria e patética

Cansaço recorrente
Coração lânguido
Língua latente

pés flácidos escalam
a rua poente

Anamnésia.

Tarde quente
Bocas beijam estesia

Entrelinhas agonientas
Desnudam o branco dos sentidos
Suicidam choro de ruídos

enviada por marieclaire



18/04/2006 01:45
Emergência
Mário Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
enviada por marieclaire



15/04/2006 14:26
O Som sibilante dos esses mudos contidos no uno maiúsculo cantarola sussurros lembrançosos, frescos; recriam e refazem o passado-vaivém de pensamentos atonais que se revezam em confortar a mente seguindo o caminho da repetição incessante para que as cenas das ações passadas desejadas para o futuro permaneçam guardadas entre a retina e as pálpebras. Na escuridão dos olhos cerrados era possível sentir a imagem do que o agora não podia outorgar. O sangue corria apenas nos olhos, aquecendo o sofrimento e a felicidade da ausência e da memória onde apenas metade do corpo atendia aos estímulos.
enviada por marieclaire



10/04/2006 23:36
A saliva interrompida dançava na garganta seca. Tentava engolir um nada que fosse, para estancar o vazio de sentido, mas não havia o que suportasse um nada, um nada que se concretizasse em algo fictício apenas para ser algo sem ser. O ar lhe faltava aos poucos e com isso a respiração tomava um andamento presto e sufocante. A íris dilatada fitava a pele que cobria imponderáveis, desconhecidos, incógnitas, e mesmo assim desejava-a. Desejava a casca perdida nos asfaltos empoeirados, conhecida a esmo, com todo o acaso do mundo.
Nascia uma placenta de amor que conservava uma dúvida embrionária; alimentava-a com soros desfavoráveis que surpreendentemente a fazia crescer e crescer. Um feto de pesares, uma esfera de fogo que incendiava o pâncreas e todas as víscera corporais e imaginárias. O ventre ansioso, tremia.

enviada por marieclaire



05/04/2006 01:06
Bom Conselho
Chico Buarque

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir
que a dor não passa
Espere sentado Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo Venha se queimar
Faça como eu digo Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Vou pra rua e bebo a tempestade
Vou pra rua e bebo a tempestade

enviada por marieclaire



26/03/2006 18:20
A Esfinge

"Decifra-me
e me devora."

Olga Savary
enviada por marieclaire



25/03/2006 01:50
A palavra refém

As pétalas estavam entre as páginas do livro. Secavam lentamente definhando entre o cemitério de células vegetais.
Abriu-o para escrever algo e voaram despencando. Abriu-o para ler algo que a confortasse ou para também voar despencando em seu próprio mundo recluso, fugindo de uma fração de si de quem tem medo.
Apanha as pétalas do chão, recoloca-as entre as folhas mal-amadas e chora a tristeza das páginas amareladas que exalam uma desoncertante pergunta.

Amor guardado apodrece.

Amar o quê? O Amor rasga sua pele brotando pelos poros, mordaças de sonhos. Como amar sem nascer? As costas se encostam, o suor transpassa os poros do tecido úmido. As roupas se beijam encharcadas.

Os omoplatas se chocam numa fricção errante, não se veêm. O osso par exibe-se saliente na parte posterior do ombro como se a qualquer momento fosse ser parido; um feto agitado no corpo de sua genitora: o feto da dor.

Amor guardado apodrece.

O feto que não aborta nem nasce lhe causa olheiras na face e a sombra de seus dedos que amedrontam a folha que escreve a desconcentra das palavras cerrando suas pálpebras. Sonha com imagens repetidas, se afoga nas lembranças do que nunca aconteceu.

As pétalas sempre caem das páginas. Poderia colá-las para que não caíssem mais, evitando essa sensação de perda momentânea, falsa liberdade de algo que nem vive mais. Caem agora pétalas em seu rosto fazendo impacientes cócegas; são espantadas como insetos pela mão cega e passional.

A palavra ficara mais uma vez presa dentro da boca; deitada na língua hesitante que desejava, só. Retraía-se querendo sair.

Fora cuspida pelas mãos.

enviada por marieclaire



12/03/2006 21:31
Maria,
Abre a porta...

abre as portas
do papel
Acorda a ponta do pincel
e tatua o branco
com teus pensamentos.
enviada por marieclaire



01/03/2006 23:23
Feliz Aniversário

Festejava o que considerava o começo. Provavelmente o primeiro começo de tantos outros começos, infinitos inícios incompletos que montam um grande quebra-cabeça. Mas não compreendia. Ninguém compreendia o que era um início. Que os inícios sempre acabam num meio-caminho e terminam num outro começo, e assim sucessivamente, num ciclo – rotina de dor, lágrimas, risos, sono. Feliz Aniversário.
enviada por marieclaire



12/02/2006 23:26
Nuvens

Desejou talhar a palavra em madeira de vento. Talhar cada letra como uma fresta fresca de onde escorre um sangue-significado violador de certezas e dúvidas. Um significado que rompe tal justaposição imantada evaporando a solução rubra que transforma-se num aroma límpido e áspero desejante, errante, por um caminho na atmosfera estática que movimenta a tudo dolorosamente.

A fragrância esbranquiçada bailarina no tablado que varia entre o azul e o negro, brinca na luz, nasce entre as vísceras pelantes de pernas douradas, fugitivas e dormem. E continuam a nascer mesmo após seus nascimentos num parto incessante sem mãe nem descendentes.

enviada por marieclaire



06/08/2005 19:53
Salmo
Paul Celan

Ninguém nos molda de novo com terra e barro,
ninguém evoca o nosso pó.
Niguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por ti queremos
florescer.
Ao teu
encontro.

Um nada
éramos nós, somos, continuaremos
sendo, florescendo.
a rosa de ninguém.

Com
o estilete clarama,
o estame alto-céu,
a coroa rubra
da palavra púrpura, que cantamos
sobre, oh, sobre
o espinho.
enviada por marieclaire






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